Prof. Ricardino fala de como surgiu a idéia do Troféu Transparência
Em meio a tantos prêmios concedidos, pelas mais diversas razões, Álvaro Ricardino, doutor em contabilidade e controladoria pela FEA/USP e, atualmente, prof. do departamento de ciências contábeis da PUC/SP, idealizou um prêmio para as empresas que fizessem demonstrações contábeis com qualidade. Ao conversar com amigos e profissionais do setor, ganhou apoio e ajuda para a criação do Troféu Transparência. Durante esse bate-papo, ele fala sobre o assunto, inclusive que não esperava o crescimento contínuo do prêmio, simplesmente porque não acreditava que as empresas entenderiam a importância de valorizar as demonstrações contábeis.
Revista Anefac: Como surgiu a idéia do Troféu Transparência? Qual foi o objetivo?
Prof. Álvaro Ricardino: A idéia surgiu durante uma aula de Análise de Balanço ministrada pelo Prof. Eliseu Martins, na época em que eu cursava o mestrado de Contabilidade e Controladoria na FEA/USP, em 1996. Em meio a tantos prêmios concedidos pelas mais diversas razões, por que nunca se pensou em premiar as Demonstrações Contábeis? E isso fosse possível, quais seriam os critérios razoáveis para considerar que uma Demonstração Contábil possui qualidade?
A resposta, de maneira intuitiva, veio quase que ligada às perguntas: por que seria extremamente trabalhoso dado o volume de demonstrações a serem analisadas e por que necessitaria reunir pessoas que possuíssem competência técnica para tanto? Mas, se havia um local que, naquele momento, reunia as condições para a realização dessa empreitada, esse local era o curso de pós-graduação em Ciências Contábeis da FEA/USP. Não que outras instituições de ensino não tivessem tal competência, pelo contrário. O diferencial é que junto à competência dos docentes e dissentes havia um maravilhoso banco de dados que reunia todas as Demonstrações Contábeis publicadas anualmente no país. A segunda pergunta a ser respondida era se haverá alguém interessado em promover o Prêmio? Havia alguns anos que eu era diretor da Anefac e a idéia se ligava aos propósitos da instituição. Então, antes de qualquer coisa, conversei com o então Presidente, Roberto Brizola, que deu total apoio à iniciativa. Procurei o Prof. Ariovaldo dos Santos, hoje, além de professor da FEA, Presidente da Fipecafi e expus meu projeto. Ele abraçou a idéia de imediato e junto, traçamos os critérios de avaliação, critérios estes que sofreram algumas alterações para melhor, desde então, e que se encontram indicados no site da Anefac.
Revista Anefac: O senhor imaginava que o prêmio alcançaria a proporção que alcançou tão rápido?
A.R: Honestamente, não! A idéia era absolutamente original, não havia como prever se iria dar certo, se as empresas entenderiam a importância de valorizar as Demonstrações Contábeis. Acho que a melhor expressão do sucesso do Prêmio foi dada pelo Prof. Eliseu Martins quando diversos outdoors relativos à premiação foram distribuídos em São Paulo. Naquela ocasião, em uma entrevista, ele manifestou algo como: Acho que nem o Ricardino, em seus melhores sonhos imaginaria ver, um dia, outdoors dando publicidade a um prêmio contábil.
Revista Anefac: Como o senhor avalia a transparência contábil das empresas onze anos atrás e hoje e o que imagina para os próximos anos? Que tipo de informação prestada merece destaque atualmente?
A.R: Sem nenhuma dúvida ela vem aumentando a cada ano. Há onze anos, demonstrações não obrigatórias, como o Fluxo de Caixa e o EVA eram apresentadas por poucas empresas e se constituíam em diferencial suficiente para incluí-las entre as melhores demonstrações, atendidos os demais requisitos de premiação, evidentemente. Hoje, tais demonstrações são apresentadas espontaneamente, por um número cada vez maior de instituições, concorrendo ou não ao prêmio. Para o futuro o nível de disclosure será cada vez maior, até por que, a partir de 2010, por determinação da CVM, todas as S/As de capital aberto deverão aderir às Normas Internacionais de Contabilidade. Não seria surpresa se alguma entidade se adiantasse à CVM e começasse a apresentar suas demonstrações tanto no modelo atual quanto em IFRS.
Revista Anefac: O que seria necessário para que as empresas brasileiras evoluíssem mais rapidamente na questão da transparência? Mudança na legislação, por exemplo?
A.R: Embora a chamada Nova Lei das S/As esteja parada no Congresso há um bom tempo, a adesão do Brasil às Normas Internacionais fatalmente trará tal melhoria. Acredito que da mesma forma que as empresas brasileiras se adaptaram à Lei 6404/76, mesmo não sendo obrigadas a tanto, o mesmo deverá ocorrer, paulatinamente, com elas em relação às Normas Internacionais de Contabilidade. Em quanto tempo isso irá ocorrer, só o futuro dirá.